Universidades usam as Redes Sociais para Ensinar
Quando criança, a paulistana Lea Gonçalves gostava de ler bulas de remédios e pensava em estudar os efeitos de cada um daqueles componentes de nomes esquisitos no organismo. Divertia-se descobrindo como a dipirona e o paracetamol aliviam a dor. Hoje, casada e mãe de um garoto de 17 anos, Lea conseguiu uma maneira de reencontrar essa paixão da infância. Aos 39 anos, voltou ao mundo da farmacologia graças a um curso online gratuito.
Apesar de não custarem nem um centavo e estarem livres na internet para qualquer interessado, as aulas que Lea começou a receber no fim de junho são organizadas por uma instituição americana de elite, a Universidade da Pensilvânia. Sua professora é a doutora Emma Meagher, formada no Royal College of Surgeons, na Irlanda, e premiada mais de dez vezes ao longo da carreira. Não é preciso gastar com livros didáticos; está tudo disponível num único lugar, em formato de textos, vídeos e exercícios.
O curso Fundamentos da Farmacologia é um dos 117 disponíveis na plataforma de ensino Coursera (coursera.org), que reúne online 19 universidades, algumas das mais conhecidas e prestigiadas do mundo, como a Universidade Stanford, Princeton, Duke e o California Institute of Technology. O sistema atingiu 1 milhão de usuários em agosto e o Brasil lidera o número de acessos fora dos Estados Unidos, com 5,9% dos alunos. Mais que Índia (5,2%) e China (4,1%).
“É uma aula diferente”, afirma Lea. “Desde criança queria estudar farmácia, mas não consegui. Mesmo sem nenhum conhecimento anterior no assunto, consigo acompanhar.” O curso de farmacologia foi um dos três primeiros disponibilizados pela Universidade da Pensilvânia no Coursera e 50 mil pessoas de todas as partes do mundo se inscreveram.
São dez semanas de duração, com uma carga horária semanal estimada entre duas e seis horas. Ao final do curso, os alunos que cumprirem todas as tarefas recebem um certificado assinado pela doutora Emma, que não vale como crédito para a universidade, mas pode ser incluído em currículos como um atestado de conclusão do ensino.
O Coursera foi lançado em abril de 2012 e é uma das principais iniciativas de uma nova onda de cursos online, que ganhou intensidade (e investimentos) ao longo deste ano. Alguns chamam essas plataformas de Moocs, sigla em inglês para cursos abertos online de massa.
Há duas diferenças principais em relação às iniciativas anteriores de e-learning: a adoção acelerada de grandes universidades à plataforma e a convergência de novas tecnologias que permitem um sistema de ensino mais interessante ao aluno, com ferramentas sociais, de interatividade e pedagógicas. É possível, por exemplo, aplicar e corrigir milhares de provas em um esquema onde os inscritos se avaliam mutuamen te, baseando-se em critérios predefinidos pelos professores.
O professor Andrew Ng, cofundador do Coursera e diretor do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford, explica que a entrada de instituições de prestígio e o avanço tecnológico estão ligados. “Temos a tecnologia de que elas precisam. Um professor que lecionava para 50 pessoas de uma vez, agora pode ensinar 50 mil”, disse Ng a INFO.
Para ele, o entusiasmo dos educadores em alcançar essa audiência gigantesca, vinda de lugares muito distantes dos Estados Unidos, está impulsionando a entrada das faculdades em uma escala mais acelerada. Assim como a perspectiva de transformar as aulas dentro do campus. “Acho que o verdadeiro valor de frequentar uma universidade de primeira linha, como a Caltech (California Institute of Technology) ou a Universidade de Washington, não é apenas o conteúdo, mas a interação. Muitos colocam suas aulas online para que, na sala de aula, os alunos tenham mais tempo de interação com o professor.”
O investimento de fundos privados veio na sequência. O Coursera já recebeu um aporte de 16 milhões de dólares para desenvolver e aprimorar sua plataforma. A tendência também se espalhou para duas das mais importantes instituições de ensino superior do mundo: a Universidade Harvard e o MIT, pioneiro em abrir seu material didático e disponibilizar aulas online.
As duas universidades anunciaram em maio o projeto edX (edx.org), com funcionamento similar ao do Coursera e um investimento inicial de 30 milhões de dólares. Por enquanto há apenas sete cursos disponíveis, e os primeiros abrem em setembro. Entre os professores está Gerald Sussman, coautor do livro Estrutura e Interpretação de Programas de Computador, importante referência na ciência da computação. Apesar de reunir apenas disciplinas ligadas às ciências exatas, haverá também cursos de humanas e biológicas.
Também é preciso ficar atento à data de início. Quando o curso começar, a pessoa estará inscrita em um plano com diversas etapas, todas com prazos mais ou menos rígidos. Haverá leituras semanais obrigatórias e recomendadas, encontros virtuais por meio do Google Hangouts, exercícios e exames de avaliação – esses têm os prazos mais rígidos, pois requerem avaliação para a emissão de uma nota final.
Vale lembrar que os cursos não ficam no ar para sempre. Quando eles terminam, geralmente após seis ou dez semanas, são retirados do site. O material fica indisponível até a abertura da turma seguinte, o que pode levar meses. Isso torna a experiência semelhante a um plano pedagógico tradicional.
Quando começam as aulas, o aluno ganha acesso a uma página customizada da disciplina escolhida, com uma série de ferramentas. No Coursera, há um quadro de avisos onde a equipe do site e os professores responsáveis atualizam os alunos com mensagens sobre o andamento do curso, as datas de exames, os novos vídeos.
Os testes variam de questionários nas videoaulas a exames maiores, que devem ser feitos dentro de um limite de tempo e podem incluir perguntas abertas e até a redação de pequenos ensaios. O processo de correção funciona de um modo peculiar. Os próprios alunos recebem as provas de outros colegas e as corrigem de acordo com parâmetros predeterminados pelo professor, como a citação de um determinado conceito estudado em aula ou de um autor.
A parte mais movimentada da página é o fórum de discussão. Ainda sem uma ferramenta de geolocalização, esses fóruns são a melhor maneira para se conectar a pessoas de sua área, conhecer colegas que possam estudar em conjunto e tornar a experiência do aprendizado mais social. É comum ver tópicos dedicados a brasileiros. No curso Introdução à Sociologia, do Coursera, o tema deu origem a uma comunidade no Facebook e à formação de um grupo de estudos que se reuniu seis vezes no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista.
Fora dos Estados Unidos - Por enquanto a maioria dos cursos do Coursera ainda está disponível apenas em inglês. O professor Ng diz que ferramentas de legendagem estão na lista de prioridades de seus desenvolvedores, assim como a expansão para universidades fora dos Estados Unidos. Ele afirma que no momento está em negociação com instituições da América Latina.
Quem é quem - Entre os novos recursos que tentam transformar o ensino online, três se destacam. As plataformas Coursera, edX e Udacity reúnem professores de instituições renomadas, como Stanford, Harvard, Princeton e o MIT. Veja como funcionam e conheça alguns profissionais ligados a elas.
EDX
O projeto é fruto da parceria entre duas das maiores instituições de ensino superior do mundo: a Universidade Harvard e o MIT, ambas americanas. Os cursos, disponíveis a partir de setembro, contam com a participação de professores dessas universidades.
Gerald Sussman - Conhecido na comunidade acadêmica pela coautoria, com Harold Abelson, do livro Estrutura e Interpretação de Programas de Computador, Sussman vai ministrar no edX um curso sobre circuitos.
Universidades que apoiam - Harvard e Massachusetts Institute of Technology.
UDACITY
Com ênfase nas ciências exatas, a plataforma oferece cursos nas áreas de ciência da computação, física e estatística. São 11 opções de aprendizagem, todas gratuitas.
Sebastian Thrun - Fundador da Udacity, Thrun foi diretor do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford. Atualmente trabalha no Google.
COURSERA
A plataforma criada por Andrew Ng e Daphne Koller, ambos de Stanford, reúne o maior número de cursos e universidades. Os professores atuam em 19 instituições de ensino superior, a maioria delas americana.
Ezekiel J. Emanuel - Trabalhou como conselheiro da Casa Branca em assuntos relacionados a saúde pública. No Coursera, ensina política da saúde.
Andrew Ng - Fundador do Coursera e diretor do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford, é responsável pelo curso de aprendizado em máquinas.
Mitchell Duneier - Professor do curso Introdução à Sociologia, do Coursera, é autor do livro Sidewalk, estudo etnográfico sobre grupos de vendedores autônomos em Nova York.
Universidades que apoiam - California InstitUte of Technology, Princeton , Rice, Stanford, Berkeley e Pensilvânia.
Fonte: Exame Info
